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O Estado de São Paulo - 22/02/2011 | INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS
Analistas rechaçam tese de subprime no Brasil
AUMENTAR A LETRA DIMINUIR A LETRA
Em artigo publicado no ''Financial Times'', gestor britânico afirma que País pode estar caminhando para uma crise de crédito semelhante à dos EUA
Analistas brasileiros descartam que esteja em formação no País uma bolha de crédito, conforme afirmou ontem, em um artigo no jornal britânico "Financial Times", o investidor Paul Marshall. Presidente de um dos maiores fundos hedge (de alto risco) da Europa, ele escreveu que o Brasil "pode estar caminhando para uma crise do subprime".

Subprime é o nome pelo qual ficou conhecida a crise que estourou em 2008 nos Estados Unidos, após a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers. Esse nome caracterizava um segmento de clientes aos quais foram concedidos empréstimos para a compra da casa própria. Como não conseguiram honrar os compromissos, seguiu-se uma onda de calotes que estourou nos bancos.

Marshall sustenta, entre outros fatores, que o ritmo de expansão do crédito aqui tem superado o crescimento nos outros países que formam os Brics (Rússia, Índia e China). Ele também cita que o comprometimento da renda dos brasileiros com prestações supera o nível dos Estados Unidos - informação divulgada em reportagem do Estado de outubro do ano passado.

Por fim, observa que os bancos brasileiros gastam mais para cobrir perdas com inadimplência do que bancos indianos e chineses. E conclui: "(O Brasil ) talvez tenha bebido com muita impulsividade no salão da desinflação (dos últimos anos)".

O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel de Oliveira, o gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian, Luiz Rabi, e o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu, rebatem os argumentos do investidor inglês.

"Para começar, não é adequado comparar economias desenvolvidas com a nossa, na qual nunca houve muito crédito à disposição dos consumidores", afirmou Oliveira. Ele também lembra que, no Brasil, os bancos limitam o comprometimento da renda dos clientes com empréstimos. "Em geral, não deixam que passe de 30% do rendimento."

Outra diferença importante entre o Brasil e os Estados Unidos é que, por aqui, a maioria dos empréstimos é concedida com taxas prefixadas. Ou seja, o devedor não está sujeito às oscilações do mercado e da própria economia. Nos EUA, um dos grandes problemas é que o juro básico da economia subiu, elevando junto o custo dos empréstimos. Muita gente, então, deixou de pagar.

Santacreu avalia que o argumento de Marshall não se encaixa no caso brasileiro porque o Banco Central (BC) tem se mostrado atento a eventuais distorções no mercado. O analista cita como exemplo as medidas macroprudenciais anunciadas no fim de 2010, com objetivo, sobretudo, de frear a expansão do crédito para a compra de veículos.

"O BC está dando sinais para os agentes econômicos de que o crédito deve ser moderado a partir de 2011", argumentou Santacreu. "Além do mais, os próprios bancos brasileiros tiveram más experiências no passado e aprenderam com elas."

Rabi observou que, tecnicamente, o artigo do inglês não trouxe nenhum cálculo excepcional. "Ele usou dados que têm sido citados por vários outros especialistas para dizer que não há risco de bolha no Brasil", disse.

O economista da Serasa também lembra que, nos EUA e em outros países desenvolvidos, as taxas de juros são bem mais baixas do que no Brasil. Isso faz com que os bancos dessas nações busquem rentabilizar suas operações - ou seja, buscar mercados como o subprime. Aqui, observa, não é preciso.


 
 
   

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